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Duas personalidades ligadas ao Porto inauguram órgão na igreja de S. António


No número passado Pacheco Gonçalves dava conta da inauguração hoeje, 10 de Dezembro do novo órgão da “igreja portuguesa de Roma”. Mons. Agotinho Borges, dacerdote de Vila Real que estudou no Seminário do Porto e Gianpaolo Di Rosa, organista titular e professor da Escola das Artes da Universidade Católica (Porto) falam do evento



Vinha de há muito o sonho de um novo órgão para a nossa linda Igreja de Santo António dos Portugueses em Roma. Depois de solicitar várias opiniões optei por seguir o conselho de Giampaolo di Rosa que me encaminhou para que pedisse ao Mestre Jean Guillou o projecto que vemos hoje concretizado. Em Janeiro de 2004 desloquei-me a Paris onde nos encontrámos junto à Igreja de Saint Eustache. Não me recordava que precisamente vinte anos antes havia comprado o seu livro intitulado L’Orgue, souvenir et avenir.

Qual o meu espanto quando a 27/01 recebo um fax com o primeiro esboço do projecto. Depois de uma visita à Igreja que ocorreu em finais de Abril passámos imediatamente ao contacto de diversas casas de organaria, já seleccionadas previamente a quem pedimos orçamentos.

Coube à Casa Mascioni a sua realização, devido às várias garantias que ofereceu: de custos, de competência e de seriedade.

Vivemos quatro anos de grande canseira para conseguir angariar fundos. Lançámos a campanha da oferta de tubos – que ainda se mantém aberta – e batemos à porta de várias instituições em Portugal e em Itália. Mas tivemos de nos contentar com pequenas ajudas.

A minha região de origem, que é a mesma do fundador desta casa – Cardeal D. Antão Martins de Chaves –, quis associar-se a esta obra com a colaboração de todos os Municípios (Alto Tâmega) através dos seus Presidentes, e ainda do Governador-Civil do Distrito de Vila Real. A Diocese de Leiria-Fátima, assim como o Santuário de Fátima quiseram também participar neste projecto da Igreja Nacional em Roma.

O Instituto diz a cada um “bem haja”, inserindo-os na lista de benfeitores. Diz obrigado ao grande Maestro Jean Guillou porque acreditou em nós e colaborou sempre com grande generosidade e alegria. Diz obrigado à Casa Mascioni e a todos os que trabalharam para que este sonho fosse realizado.

A presença de Sua Excelência Reverendíssima Mons Gianfranco Ravasi, Presidente do Pontifício Conselho da Cultura é para nós uma honra e motivo de muita alegria. Sabe bem quando vemos que alguém da Igreja, com a responsabilidade máxima no mundo da cultura, acredita no nosso projecto e nos incita a ir mais longe. Por isso lhe ficamos eternamente gratos.

Já dizem por aí que é o melhor de Roma. O Maestro Giampaolo di Rosa, organista titular, assumirá a direcção artística desta nova etapa e vai ajudar-nos a garantir uma programação intensa já a partir da Festa da Epifania: Missa Dominical com órgão, seguida de um Concerto.

Gostaria de citar o Papa Bento XVI que, a 13 de Setembro de 2006 na Alte Kapelle de Ratisbona, afirmou: «O órgão, desde sempre e com razão, foi considerado o rei dos instrumentos musicais, porque abrange todos os sons da criação e dá ressonância à plenitude dos sentimentos humanos. Para mais, transcendendo, como toda a música de qualidade, a esfera simplesmente humana, transporta para o divino. A grande variedade dos timbres do órgão, do piano até ao fortissimo arrebatado, faz dele um instrumento superior a todos. Ele tem a capacidade de dar ressonância a todos os âmbitos da existência humana. As múltiplas possibilidades do órgão recordam-nos de certa maneira a imensidão e magnificência de Deus.». 



Mons. Agostinho Borges – Reitor




Um órgão único


O novo Grande Órgão Mascioni, projectado por Jean Guillou, da Igreja de Santo António dos Portugueses em Roma, Igreja Nacional de Portugal, encomendado pelo Reitor Mons. Agostinho Borges, é único na capital italiana, quanto à originalidade e funcionalidade no espaço sagrado que o acolhe.

A qualidade do novo órgão é sinfónica, com um complexo “jogo” interactivo entre os diferentes registos distribuído pelos quatro teclados e o pedal, alguns sendo baseados em seis oitavas reais.

Aliás o critério da “metamorfose tímbrica” assim com a transmissão sensitiva fazem dele um instrumento autenticamente complexo, concebido num espaço não grande, onde tudo foi respeitado do ponto de vista da arquitectura do que existe na Igreja.

A função do órgão é a de tocar, e de tocar de modo idóneo na liturgia.

Mas o órgão, instrumento de tubos, de teclas e de ar, nasce e apresenta-se de maneira poliédrica.

Já a mestria conceptual de Guillou unida à arte de construção da Família Mascioni o demonstram.

Ulteriormente o programa do órgão de S. António irá considerar o instrumento de modo activo enquanto sujeito no espaço sagrado no qual se encontra: interpretação de todo o repertório, solista e com outros instrumentos e vozes, improvisação, composição original hodierna.

Estes são os aspectos fundamentais que serão oferecidos cada Domingo e durante todo o à comunidade portuguesa, mas também à comunidade romana e a todos os peregrinos que virão à nossa Igreja, primeiro exemplo de renovada arte organística europeia em Roma.


Giampaolo Di Rosa (Organista Titular)




Santo António dos Portugueses encerra ciclo Messiaen

Foi em Roma, na igreja de Santo António dos Portugueses, que o organista Giampaolo di Rosa encerrou o ciclo de concertos encetado pela Escola das Artes da Universidade Católica do Porto. Ciclo de concertos ímpar, ciclo de concertos consagrado à integral de obras para órgão do colossal compositor francês Olivier Messiaen. Foi em Roma, no novo órgão da Igreja de Santo António dos Portugueses, em 10 de Dezembro de 2008, dia em que se completavam 100 anos sobre os eu anscimento.

«La Natavité du Seigneur» – Neuf Méditations – concerto memorável onde o organista Giampaolo di Rosa levou um público, algo hesitante a início, a uma meditação profunda, meditação essa onde a natureza de oração, que é inerente às obras deste compositor profundamente católico, foi uma constante ao longo das nove meditações. 
Giampaolo di Rosa abordou a obra de uma forma original, pois com a sua mestria, virtuosismo, conhecimento profundo da obra, naturalmente, e conhecimento do novo e moderno órgão que enriquece a igreja de Santo António, bem como a galeria mundial dos órgãos voltados para o futuro mas com o devido respeito por uma tradição secular, fez-nos ouvir um Messiaen que convidava a uma interpretação extremamente inventiva, onde a riqueza dos timbres, que o magnífico instrumento dispõe, apelavam a uma apresentação peculiar, ao mesmo tempo sinfónica e majestosa, subtil e delicada e que Giampaolo di Rosa soube dominar e expor. 

No final do concerto o Maestro di Rosa foi convidado a improvisar. Os temas foram “Senhora nós vos louvamos”, do insigne Manuel Faria e “Salve Regina”; mais uma vez a exaltação do órgão foi uma constante. O esplêndido virtuosismo e sensibilidade de Giampaolo arrebataram todos aqueles que se deslocaram à igreja de Santo António, terminando assim uma bela noite de Música, uma noite onde Olivier Messiaen completou cem anos, cem anos de riqueza e beleza para a Humanidade. 

(Nuno Costa)

Inauguração do Novo Órgão da Igreja Santo António dos Portugueses


Um dos mecenas da igreja nacional de Portugal, fundada em meados do século XV pelo cardeal D. Antão Martins de Chaves, foi Manuel Pereira de Sampaio, orgulhoso e faustoso embaixador de João V, pensou também na música para maior decoro do culto e glória da nação portuguesa, na igreja onde se celebravam então as pomposas exéquias reais e onde o Papa Bento XIV se deslocou quatro vezes. Foi ele quem financiou a construção do primeiro órgão no coro preexistente, com seu belo frontispício em que os tubos se alinham no esquema 9+7+9, rematado superiormente por um entablamento côncavo e convexo e profusamente ornado por cabeças angélicas e grinaldas florais.

Desta obra encomendada pelo embaixador, de que dá notícia o Diario romano de Chracas a 13 de Abril 1748, não ficou senão a fachada, pois que a máquina original foi desmontada e vendida quando as tropas francesas de Berthier depuseram Pio VI e proclamaram a República Romana em Fevereiro de 1798. Graças à enérgica acção do reitor Monsenhor José de Castro, ali foi colocado em 1956 um instrumento a transmissão eléctrica, construído pela empresa Ruffatti, e que há muito apresentava problemas técnicos e inultrapassáveis limites à execução artística das peças musicais.

No passado dia 7 de Dezembro de 2008 a reitoria do Instituto Português de Santo António escreveu orgulhosamente uma nova página da história desta vetusta igreja nacional: Monsenhor Giuseppe Ravasi, Presidente do Potificio Consiglio della Cultura, abençoou o novo grande órgão de Santo António dos Portugueses, e reflectindo sobre a harmonia, o silêncio e sobre o tempo da bondade e do amor, Monsenhor Ravasi ilustrou maravilha da música com o facto de a Bíblia iniciar com um elemento sonoro, rompendo o silêncio do nada e dando origem à criação – que é a voz de Deus. Na presença de uma multidão de pessoas, em que pontuavam SS.EE. os senhores Embaixadores de Portugal junto do Estado Italiano, Dr. Fernando d’Oliveira Neves e Senhora, depois de rezada a oração da bênção, Monsenhor Ravasi invocou oito vezes o órgão como instrumento sacro, elevando o cantar dos fiéis a Deus. Seguidamente o órgão foi incensado e aspergido com água benta.

No inesquecível concerto inaugural, na tarde do mesmo dia, Jean Guillou, o seu projectista, começou por “pedir a aprovação” do maior organista do século XVIII – e ele mesmo introdutor de importantes melhoramentos na arte da organaria – Johann Sebastian Bach, com a interpretação do Preludio e fuga in mi minore BWV 548. E como Bach confirmasse os extraordinários sons do novo grande órgão, o espectáculo continuou, com as tocatas de Frey Jacinto, compositor português do século XVIII, e de Carlos Seixas, organista da Sé patriarcal de Lisboa e Mestre da Capela Real no Portugal de D. João V. Seguiram-se Vivaldi, Franck, e naturalmente o próprio Jean Guillou, com a assombrosa interpretação das suas Sagas números 2, 1, 6, em que as várias densidades do som se condensaram em massas sonoras desenhando um movimento perpétuo.

Todas as execuções ilustraram amplamente, a criação que, sobre os temas de base um artista como Jean Guillou, servido por um grande órgão, como o de Santo António dos Portugueses, pode fazer. Com recurso às extensíssimas capacidades fónicas do novo instrumento foi possível levar ao extremo a exploração dos registos, na mudança veemente que ia fazendo de teclado para teclado, alcançando assim a orquestração prodigiosa de peças simples, como aquelas portuguesas, através de repetições que de vez em vez apresentação metamorfoses novas de um mesmo tema.

Durante este primeiro concerto, a igreja cheia de gente pôde confirmar uma outra das coisas notáveis deste órgão, que é o próprio espaço onde ele está inserido. O facto de Santo António dos Portugueses ser uma igreja de dimensões moderadas, e não uma grande catedral, faz com o que o ouvinte tenha uma sensação de grande proximidade com o som, muito embora esta não o fira. Estando “escondido” por trás da intocada estética barroca do templo, cria uma aura de mistério, porquanto há um som fabuloso que se ouve e sente próximo, mas não se vê de onde vem. Além disso, a tripartição dos grupos de tubos cria como que um desafio cantado entre três solistas – o positivo e as duas metades do grande órgão. A moderna consola, com a forma elíptica, é dotada de mobilidade, pelo que é deslocada para o centro do cruzeiro em ocasiões de concerto, e estaciona no braço esquerdo do transepto durante a celebração eucarística.

O grande órgão de Santo António dos Portugueses foi construído pela família Mascioni, uma das mais prestigiadas casas de organaria italianas, com uma longa tradição de seis gerações de construtores de órgãos desde 1829, e mais de mil órgãos construídos, sob projecto de transmissão proporcional assinado por Jean Guillou.

Compositor, intérprete e musicólogo de fama internacional, organista titular dos grandes órgãos da igreja parisiense de Saint-Eustache, Jean Guillou tem dedicado a sua vida à tentativa de superar os limites técnicos do jogo instrumental na criação de um discurso musical expressivo, quase literário e na intercomunicabilidade que estabelece entre o órgão, a orquestra e vários instrumentos. Autor de vasta obra musical e teórica, descreve no livro L'Orgue, Souvenir et Avenir o novo “órgão de estrutura variável” construído em Alpe d’Huez (eglise Notre-Dame-des-Neiges), Bruxelas (igreja do Chant d’Oiseaux), Nápoles (Conservatório), Zurique (Tonhalle) e Tenerife (Sala dos Concertistas) e agora em Roma, na igreja nacional de Santo António dos Portugueses.

É intenção do ideador deste excepcional projecto, o Reitor do Instituto, Monsenhor Agostinho da Costa Borges oferecer à cidade de Roma, semanalmente, uma solene celebração litúrgica servida pela melhor música religiosa, à qual se seguirá um concerto de música erudita. Está já concluída a programação para o primeiro trimestre de 2009 que é constituída por 15 concertos, em ligação às celebrações litúrgicas da Epifania e da Quaresma, mas também a efemérides como o bicentenário do nascimento de Felix Mendelssohn-Bartholdy, e com a participação de alguns organistas convidados como Massimo Nosetti, Ansgar Wallenhorst, Daniel Ribeiro e Bruno Baptista.

Baseado em tal ciclo permanente de concertos organísticos semanais durante todo o ano, na senda da maior tradição eclesiástica organística europeia, se entende estabelecer em Santo António dos Portugueses uma tradição que o distinga ainda mais no panorama musical da cidade. O seu motor é o jovem Giampaolo Di Rosa, nomeado Organista Titular do novo grande órgão Mascioni (IV/47) da igreja nacional, conhecido Pianista, Organista, Cravista, Improvisador, Compositor, Analista Musical, Docente na Escola de Artes da Universidade Católica Portuguesa do Porto, dividindo-se entre Itália, Portugal, Alemanha e França, onde faz numerosos concertos, grava CD, publica composições e se dedica em modo particular ao repertório sinfónico para órgão e estando a completar desde há alguns anos a actualização interpretativa do órgão ibérico.

Nas suas próprias palavras, este instrumento “rappresenta un unicum nella capitale italiana, in quanto ad originalità e funzionalità (...) La qualità del nuovo organo è sinfonica (...) Inoltre il criterio di “metamorfosi timbrica” così come la trasmissione sensitiva ne fanno uno strumento autenticamente complesso concepito in uno spazio non grande”.
 (Francisco de Almeida Dias)


Por favor, citar como, DIAS, Francisco de Almeida, “Inauguração do Novo Órgão da Igreja Santo António dos Portugueses” in L’Osservatore Romano, anno XXXIX, num. 51 (2.035), edição semanal em português, Sábado 20 de Dezembro de 2008, p. 9.














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Pubblicato su: 2009-01-22 (749 letture)

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